Copa 20265 min de leitura·29 de julho de 2026

FIFA quer vender ações da Copa do Mundo para investidores privados

A FIFA anunciou plano de criar empresa para vender direitos comerciais a investidores. Entenda o projeto FFE, os valores envolvidos e as críticas.


FIFA anuncia criação da FIFA Forward Enterprise (FFE)

Poucos dias após a conclusão da Copa do Mundo de 2026, a FIFA revelou um dos projetos mais ambiciosos — e polêmicos — de sua história recente. A entidade máxima do futebol mundial anunciou o plano de criar a FIFA Forward Enterprise (FFE), uma empresa dedicada a administrar seus direitos comerciais, incluindo transmissão, patrocínio, venda de ingressos e licenciamento de marca.

A ideia central é atrair investidores minoritários para essa nova estrutura corporativa, permitindo que capital privado participe da exploração econômica dos maiores eventos do futebol. Na prática, a FIFA pretende transformar parte de seus ativos comerciais em oportunidades de investimento, algo inédito na escala proposta.

Segundo informações divulgadas pela própria entidade e reportadas pela Gazeta Esportiva, a FIFA estima que a FFE poderá arrecadar mais de US$ 10 bilhões nos próximos quatro anos. Os lucros gerados seriam reinvestidos no desenvolvimento do futebol por meio de novos programas de financiamento às federações nacionais — uma promessa que busca justificar a abertura ao capital privado.

Como funcionaria o modelo

O projeto prevê que a FFE centralize a gestão dos direitos comerciais que hoje são administrados diretamente pela FIFA. Isso inclui:

  • Direitos de transmissão de competições como a Copa do Mundo e o Mundial de Clubes;
  • Contratos de patrocínio com marcas globais;
  • Receitas de ingressos e hospitalidade em eventos FIFA;
  • Licenciamento de produtos, jogos eletrônicos e conteúdo oficial.

Ao reunir essas fontes de receita em uma única empresa, a FIFA criaria um veículo financeiro mais atrativo para investidores institucionais. Os investidores adquiririam participações minoritárias, ou seja, não teriam poder de decisão sobre as regras do jogo ou a organização dos torneios, mas participariam dos resultados financeiros.

O banco de investimentos J.P. Morgan e o fundo Thrive Eternal foram apontados como apoiadores do projeto, o que sinaliza que há interesse concreto do mercado financeiro na proposta. A participação de uma instituição do porte do J.P. Morgan confere credibilidade à estrutura financeira, embora não elimine as controvérsias.

O que a FIFA promete com os recursos

A FIFA argumenta que a criação da FFE permitiria um salto significativo no financiamento do futebol de base e no apoio às federações menores. Entre os pontos destacados pela entidade estão:

  • Ampliação dos programas de desenvolvimento voltados a federações nacionais de países com menos recursos;
  • Investimento em infraestrutura esportiva em regiões que hoje carecem de campos, centros de treinamento e academias;
  • Fortalecimento do futebol feminino, com mais verbas para competições e programas de formação;
  • Modernização tecnológica, incluindo VAR, análise de dados e plataformas digitais.

A promessa de reinvestimento integral dos lucros é o principal argumento da FIFA para defender que o projeto não representa uma "mercantilização" do esporte, mas sim uma forma mais eficiente de gerar recursos para a modalidade.

Críticas e resistências ao projeto

Apesar do potencial financeiro, a iniciativa já enfrenta oposição significativa de diferentes setores do futebol mundial. A resistência vem tanto de dentro da estrutura esportiva quanto do campo político.

A posição da UEFA

A UEFA, confederação europeia de futebol e historicamente uma das vozes mais influentes no cenário global, manifestou preocupação com o projeto. A entidade europeia questiona se a abertura a investidores privados não comprometeria a autonomia do futebol e a governança esportiva. Para a UEFA, há o risco de que decisões estratégicas passem a ser influenciadas por interesses financeiros externos, mesmo que os investidores tenham participação minoritária.

Sepp Blatter se posiciona contra

Sepp Blatter, ex-presidente da FIFA que comandou a entidade por 17 anos, também criticou publicamente a proposta. Blatter afirmou que o futebol não deve ser tratado como um ativo comercial a ser vendido a investidores. A declaração carrega peso simbólico, embora Blatter tenha deixado a presidência da FIFA em meio a escândalos de corrupção.

Preocupações políticas

Lideranças políticas de diferentes países também levantaram questionamentos. A principal preocupação é que a entrada de capital privado em uma entidade que regula o esporte mais popular do mundo possa gerar conflitos de interesse. Parlamentares europeus, por exemplo, argumentam que a FIFA, como entidade sem fins lucrativos, tem responsabilidades sociais que não combinam com a lógica de retorno financeiro para investidores.

Contexto: o futebol e o capital privado

A proposta da FIFA não surge em um vácuo. Nos últimos anos, o futebol mundial tem vivido uma crescente aproximação com o capital privado em diversas frentes:

  • Fundos de investimento como o CVC Capital Partners já adquiriram participações em ligas nacionais, como a La Liga (Espanha) e a Ligue 1 (França);
  • Grupos multiesportivos, como o City Football Group e a Red Bull, controlam múltiplos clubes em diferentes países;
  • A Arábia Saudita, por meio de seu fundo soberano, investiu bilhões no futebol local e internacional;
  • A própria Superliga Europeia, embora fracassada em seu formato original, representou uma tentativa de reorganizar o futebol sob lógica comercial.

Nesse contexto, a criação da FFE pode ser vista como mais um passo na financeirização do esporte — ou, na visão da FIFA, como uma evolução necessária para competir por atenção e recursos em um mercado de entretenimento cada vez mais disputado.

O que falta para o projeto avançar

É importante destacar que a criação da FIFA Forward Enterprise ainda não foi aprovada. O projeto precisa passar pelo crivo do Conselho da FIFA, órgão que reúne representantes de confederações continentais e federações nacionais. Dado o nível de oposição já manifestado, especialmente pela UEFA, a aprovação está longe de ser garantida.

Além disso, questões regulatórias em diferentes jurisdições podem representar obstáculos. A FIFA tem sede na Suíça, onde a legislação para entidades esportivas tem particularidades que precisarão ser compatibilizadas com a estrutura corporativa proposta.

Conclusão

A proposta de criar a FIFA Forward Enterprise representa um momento decisivo para o futuro da governança do futebol mundial. De um lado, a promessa de mais de US$ 10 bilhões em receitas e o reinvestimento no desenvolvimento do esporte são argumentos poderosos. De outro, as críticas da UEFA, de ex-dirigentes e de lideranças políticas revelam um desconforto legítimo com a ideia de transformar os direitos comerciais do maior evento esportivo do planeta em produto financeiro.

O debate está apenas começando, e as próximas semanas devem trazer novos desdobramentos à medida que o Conselho da FIFA analisa a proposta. Continue acompanhando nosso blog para ficar por dentro de todas as atualizações sobre esse tema e outros assuntos que moldam o futuro do futebol.

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